Saí de manhã para lavar o carro, o lavador fica na rua ao lado da casa do Rubem Braga, aqui em Cachoeiro. Só que... resolvi esperar – na casa do Rubem. Lembrei que meu computador portátil estava no carro e levei-o comigo, o local funciona como biblioteca pública, aproveitaria para passar o tempo com ele. Ao entrar me senti muito bem, uma atmosfera diferente que nos envolve, nos remetendo ao passado. Gosto de casas antigas, esta eclética do inicio do sec.XX, com um particular aqui viveu Rubem Braga, o grande ícone da nossa literatura, até os 13 anos de idade. A Casa tem assoalho de madeira, pé direito alto, como era costume na época; alguns marcos de porta feitos em madeiras muito grossas. Escolhi uma mesa perto de uma das muitas janelas que mais tarde descobri ter sido o quarto dos pais do Rubem. Pedi licença para dona Sônia e dona Palmira, funcionárias há vários anos do local, para sentar e escrever qualquer coisa (digo qualquer coisa por ser pretensão minha escrever na casa onde viveu nosso maior cronista), mas tinha que aproveitar meu tempo. Da janela, podia ver o pé de fruta pão no quintal, que, certamente, serviu de passatempo de infância e inspiração para várias crônicas. De vez em quando, eu podia ouvir as pessoas conversando na rua, mas, no interior da casa tudo era silencioso. Resolvi pesquisar algumas crônicas: descobri que ali mesmo onde estava, era o quarto dos seus pais; descobri que Cachoeiro, em 1872, possuía uma linha de navegação, formada por até seis vapores e uma barca de passageiros, que ligava Barra de Itapemirim a Cachoeiro, levando oito horas para descer o rio, dez a doze para subir, explorada pelo Capitão Deslandes. Anos mais tarde o vapor foi desativado e Rubem nunca conseguiu viajar nele. Sua frustração é descrita no trecho da crônica que segue "O Porto da Minha Infancia""...lembro-me que uma vez meu pai viajou no vaporzinho. Eu disse que queria ir, mas alguém disse que quem iria era meu irmão mais velho, eu teria de esperar minha vez. Era razoável. Mas o diabo é que havia dois Irmãos mais velhos para ir antes de mim” R.B.
Enquanto escrevia, um vento trouxe uma folha e a janela se fechou atrás de mim. Levantei para abri-la, vi a folha no chão, ao recolhê-la, percebi uma crônica fixada na parede que me chamou a atenção. Falava sobre aquela mesma janela, sob a qual Rubem Braga dormia, em uma cama com colchão de palhinha. Ele ficava ali, olhando o pé de fruta pão que cortava o céu com suas folhas grandes, memória mais antiga de sua infância.
“... nesta casa, nesta janela e ao mesmo tempo é completamente natural e parece que toda minha vida fora daqui foi apenas uma excursão confusa e longa; moro aqui. Na verdade onde posso morar senão em minha casa?”R B
Aquela folha não caiu por acaso! Vindo á Capital Secreta, visite a casa dos Braga (o espaço cultural mais visitado), onde funciona o Museu, com o acervo da Família, e a Biblioteca Municipal Major Walter dos Santos Paiva com o maior acervo do sul do estado. 2010, será o ano da Bienal Rubem Braga – fica o convite.
César Augusto Dias Eleodoro
Turismólogo rasectur@hotmail.com
2 comentários:
Gostei muito deste artigo, entre todos este é um dos melhores, mexe com a gente, com o passado de Cachoeiro que é muito rico.
Seus artigos estão cada vez melhor, continue assim que vc vai lonnngeeeee.
Amigo, esses seus artigos estão ficando muito bons, penso que o Rubem Braga ta te trazendo algumas inspirações. rsrsrsr
Parabéns!!!!
Carmen - Opção Turismo
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